domingo, 28 de setembro de 2008

FOCO 48: OS CONFLITOS EM SERRA LEOA !

Situada na costa oeste africana, Serra Leoa foi criada em 1787 para ser uma colônia e receber escravos emancipados pelos ingleses após a independência dos Estados Unidos. Os não-nativos africanos, conhecidos como krios, foram colocados pela coroa britânica nos altos postos da administração, de modo que nos anos 50, Serra Leoa proclamava sua lealdade à Rainha, enquanto o resto das colônias tratava de buscar sua independência.
Em 1968, após sucessivos golpes de estado, Siaka Stevens, do Congresso de Todos os Povos (APC), declarou Serra Leoa república independente e estado uni-partidário. Sua presidência durou 17 anos, e, no meio de grave crise, foi seguido pelo general Joseph Saidu Momoh.
Serra Leoa só despertou mesmo o interesse dos europeus quando o diamante foi descoberto, em 1930. Até dois anos após sua independência, apenas os brancos exploravam a pedra. Desde que as minas foram nacionalizadas, não houve mais paz.
Desde 1961, data de sua independência, Serra Leoa vive alternando governos civis, militares e golpes violentos. O país, entre os mais pobres do mundo, apesar das jazidas de diamantes nas mãos de estrangeiros, pouco interessa às grandes potências européias e foi deixado à deriva: não vale a pena enviar exércitos, nesse clima generalizado de violência e pobreza, a troco de nada.
O atual conflito iniciou-se com a derrubada do presidente Ahmed Tejan Kabbah por rebeldes da Frente Revolucionária Unida, liderados por Foday Sankoh, atualmente na prisão. Invocando a legalidade da eleição de Kabbah, a Nigéria e outros países enviaram uma força de intervenção que reconduziu o ex-presidente ao governo e expulsou os rebeldes da cidade, em fevereiro de 1998. Em dezembro do mesmo ano, os rebeldes, muitos dos quais são adolescentes, retomaram Freetown: somente na primeira quinzena de lutas, houve mais de 10 mil mortos. Em seguida, as forças governamentais conseguiram melhorar a própria situação, mas o caos continua.
De dia, predominam as forças do governo, à noite, os guerrilheiros adolescentes, nada tendo a perder a não ser a própria vida e liderados por guerrilheiros adultos, entregam-se à matança e ao estupro: decepam braços e pernas, cortam o ventre das grávidas, jogam as vítimas no mar ou abandonam os cadáveres nas ruas como alimento para os abutres. Não existe mais autoridade nesse país que segue a trajetória de outros países africanos, como Ruanda, Burundi e Angola, tristemente lembrados pela selvageria das matanças étnicas, e é difícil prever uma solução para o conflito. Os guerrilheiros reclamam a libertação de seu líder, mas o governo não parece disposto a ceder.

Idade da pedra, Na miséria, Serra Leoa vive guerra civil movida a contrabando de diamantes feita por rebeldes bandoleiros
“Oh, diamantes, diamantes, diamantes. Desde a guerra, todo mundo está ficando louco por causa dos diamantes. Você não pode imaginar a quantidade de propina que isso movimenta” (Yusef, personagem de The heart of the matter, de Graham Greene, romance ambientado em Serra Leoa)
Em Freetown, capital de Serra Leoa, o trabalho dos cirurgiões costuma ser mais estressante do que o da Força de Paz da ONU (Unamsil), que na semana passada teve quase 500 de seus soldados sequestrados por rebeldes da Frente Revolucionária Unida (FRU) e estava prestes a entrar em combate com o grupo. Os médicos têm que se desdobrar para amputar mãos, braços ou pernas de um número crescente de homens, mulheres e até crianças cujos membros foram parcialmente decepados a golpes de machado desfechados pelos “guerrilheiros” da FRU. É uma organização de rapina, chefiada por um ex-cabo do Exército e ex-cameraman, Foday Sankoh, que vive do contrabando de diamantes e fez da mutilação, sequestro e estupro de civis inocentes sua marca registrada. Num dos países mais miseráveis do mundo, um dos poucos cuja distribuição de renda é pior do que a do Brasil (leia gráfico), o contrabando de diamantes é o combustível de uma guerra civil que desde 1992 já matou milhares de pessoas e obrigou meio milhão de leoneses a abandonar o país.
Com o fim da Guerra Fria, o comércio ilegal de diamantes se tornou, em meados dos anos 90, uma grande fonte de recursos para Exércitos e guerrilhas numa área de guerras endêmicas da África ocidental, em países como Congo, Angola, Libéria e Serra Leoa. “Ninguém pode guerrear sem dinheiro, e diamantes aqui representam dinheiro”, resume o comprador Willy Kingombe Idi. De fato, naquela parte da África, o contrabando de diamantes vem exercendo um papel que em outras áreas de conflitos, como na América Latina e Ásia, costuma ser dominado pelo narcotráfico. Pesquisadores independentes, como a jornalista britânica Christine Gordon, acreditam que esse tráfico na África ocidental responde por 10% e 15% do total do comércio mundial de diamantes, que somente no ano passado movimentou nada menos que US$ 5 bilhões. A FRU controla hoje a maior parte das minas de diamantes localizadas na região Leste de Serra Leoa, obtendo lucros de milhões de dólares com a exportação ilegal, principalmente para a vizinha Libéria, liderada pelo ex-rebelde e atual presidente, Charles Taylor. Aliás, o crescimento da FRU coincide com a ascensão de Taylor na Libéria, eleito em 1997. Ele e Sankoh são velhos amigos: ambos receberam treinamento militar na Líbia, iniciaram rebeliões contra os governos de seus países no final dos anos 80 e se ajudaram militarmente. O governo liberiano nega o contrabando, mas, de acordo com dados do Higher Diamond Council, em Antuérpia (Bélgica), o valor das exportações de diamantes brutos de Serra Leoa caiu de US$ 66 milhões para US$ 31 milhões em 1999, ao mesmo tempo que as exportações da Libéria – que não produz diamantes – pularam de US$ 268 milhões para US$ 298 milhões. Estudos recentes indicam que Serra Leoa está perdendo anualmente entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões com o tráfico.
Segundo diplomatas e funcionários da ONU, os comandantes da FRU embolsam uma porcentagem das vendas de diamantes, mas grande parte do dinheiro é usada na compra de armas modernas. A organização Human Rights Watcht afirma que somente em março do ano passado 68 toneladas de armas provenientes da Ucrânia e de Burkina Faso foram entregues aos militantes da FRU. Mas o dinheiro dos diamantes também é utilizado para financiar a campanha eleitoral do líder Foday Sankoh – a eleição presidencial de Serra Leoa está prevista para o próximo ano. A principal razão para o recente recrudescimento do conflito foi a tentativa que a Força de Paz da ONU fez para retomar as áreas de produção de diamantes, conforme previa o acordo de paz assinado entre o governo e os rebeldes em julho do ano passado.
Aos 63 anos, o roliço Foday Sankoh – conhecido como “Papa” – comanda um exército que tem entre 10 mil e 15 mil homens, a maioria recrutada através do sequestro de jovens camponeses, muitos dos quais ainda são adolescentes. A organização foi formada em 1991 por ele e por um grupo de seguidores treinados na Líbia oriundos do movimento estudantil com o objetivo de lutar contra a corrupção institucionalizada do regime de partido único. Hoje, a FRU ainda abriga um minoritário grupo de idealistas pan-africanos, mas a maioria dos militantes, jovens empobrecidos, vê o movimento como simples meio de ganhar a vida. Apesar do discurso “esquerdista” de seu líder (“Os agentes do colonialismo chamados políticos fizeram nosso povo empobrecer. É por isso que nós estamos lutando”), a organização adota métodos da mais pura bandidagem, aterrorizando a população com mutilações, estupros, sequestros e assassinatos. Métodos que, diga-se de passagem, foram ensinados aos africanos no século passado pelo rei da Bélgica Leopoldo II no Congo Belga. Condenado à morte por traição em 1997, o carniceiro Sankoh não apenas foi anistiado com o acordo de paz de 1999 como ganhou o cargo de vice-presidente, e a FRU várias pastas no Ministério. Na segunda-feira 8, a guarda pessoal de Sankoh atacou a multidão que protestava em frente à sua casa em Freetown e matou oito manifestantes. O líder guerrilheiro não foi visto desde então. Seu desaparecimento aumentou os temores de que o infeliz país mergulhe mais uma vez num interminável banho de sangue.

FOCO 47: OS CONFLITOS NO SUDÃO !

O conflito de Darfur é um conflito armado em andamento na região de Darfur, no oeste do Sudão, que opõe principalmente os janjawid - milicianos recrutados entre os baggara, tribos nômades africanas de língua árabe e religião muçulmana - e os povos não-árabes da área. O governo sudanês, embora negue publicamente que apóia os janjawid, tem fornecido armas e assistência e tem participado de ataques conjuntos com aquele grupo miliciano.
O conflito teve início em fevereiro de 2003. As mortes causadas pelo conflito são estimadas entre 50 000 (Organização Mundial da Saúde, setembro de 2004) e 450 000 (Dr. Eric Reeves, 28 de abril de 2006). A maioria das ONGs trabalha com a estimativa de 400 000 mortes. O número de pessoas obrigadas a deixar seus lares é estimado em 2 000 000. A mídia vem descrevendo o conflito como um caso de "limpeza étnica" e de "genocídio". O governo dos EUA também o considera genocídio, embora as Nações Unidas ainda não o tenham feito.Quando os combates se intensificaram em julho e agosto de 2006, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 1706, de 31 de agosto de 2006, que prevê o envio de uma nova força de manutenção da paz da ONU, composta de 20 000 homens, para substituir as tropas da União Africana presentes no local, que contam com 7 000 soldados. O Sudão opôs-se à Resolução e, no dia seguinte, lançou uma grande ofensiva na região.Diferentemente da Segunda Guerra Civil Sudanesa, que opôs o norte muçulmano ao sul cristão e animista, em Darfur não se trata de um conflito entre muçulmanos e não muçulmanos pois a maioria da população é muçulmana, inclusive os janjawid.Darfur tem cerca de 5 a 6 milhões de habitantes, numa região com baixo nível de desenvolvimento: apenas 44,5% das crianças do sexo masculino - e um-terço do feminino - freqüentam a escola.Três tribos são predominantes na região: os fur (que emprestam o nome à região), os masalit e os zaghawa, em geral negros muçulmanos.O Sudão tem uma história de conflitos entre o sul e o norte do país, que resultaram na primeira (1955-1972) e na segunda (1983-2005) guerras civis sudanesas. A segunda confrontação causou cerca de dois milhões de mortos e mais de quatro milhões de refugiados, em ambos os casos principalmente no sul.Em 2003, dois grupos armados da região de Darfur rebelaram-se contra o governo central sudanês, pro-árabe. O Movimento de Justiça e Igualdade e o Exército de Liberação Sudanesa acusaram o governo de oprimir os não-árabes em favor dos árabes do país e de negligenciar a região de Darfur.Em reação, o governo lançou uma campanha de bombardeios aéreos contra localidades darfurenses em apoio a ataques por terra efetuados por uma milícia árabe, os janjawid. Estes últimos são acusados de cometer grandes violações dos direitos humanos, inclusive assassinatos em massa, saques e o estupro sistemático da população não-árabe de Darfur. Os janjawid também praticam o incêndio de vilarejos inteiros, forçando os sobreviventes a fugir para campos de refugiados localizados em Darfur e no Chade; muitos dos campos darfurenses encontram-se cercados por forças janjawid. Até o verão de 2004, entre 50 000 e 80 000 pessoas haviam sido mortas e pelo menos um milhão haviam fugido, provocando uma grande crise humanitária na região.

Em setembro de 2004, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução no. 1564, que estabeleceu uma comissão de inquérito em Darfur para avaliar o conflito. Em janeiro de 2005, a ONU divulgou um relatório afirmando que embora tenha havido assassinatos em massa e estupros, aquela organização internacional não estava em condições de classificá-los como genocídio, devido a "uma aparente falta de intenção genocida" (tradução livre do inglês).Em maio de 2006, o Exército de Liberação Sudanesa, principal grupo rebelde, concordou com uma proposta de acordo de paz com o governo. O acordo, preparado em Abuja, Nigéria, foi assinado com a facção do Movimento liderada por Minni Minnawi. No entanto, o acordo foi rechaçado tanto pelo Movimento Justiça e Igualdade como por uma facção rival do próprio Exército de Liberação Sudanesa, dirigida por Abdul Wahid Mohamed el Nur.Os principais pontos do acordo eram o desarmamento das milícias janjawid e a incorporação dos efetivos dos grupos rebeldes ao exército sudanês. Apesar do acordo, os combates continuaram.

Os conflitos que se têm desenvolvido no Sudão, inserem‑se na categoria de conflito persistente, pela sua dura­ção prolongada e pelos motivos que lhe têm estado subjacentes, que radicam, essencialmente, em questões de reconhecimento mútuo.

O Sudão situa‑se numa região onde se assiste a grandes convulsões e violên­cias, por variadas razões. Incluimos nesta região o Chade, a Repúbli­ca De­mo­crá­ti­ca do Congo, o Uganda, o Ruanda, a Eritreia, a Etiópia, a So­má­­lia, onde existem problemas resultantes de conflitos e de carências básicas.

Darfur é o nome que atualmente é mais publicado pela co­mu­nicação social, fa­zen­do‑se eco das declarações, das posições e das ações to­ma­das pela comunidade internacional, principalmente, no âmbito das Na­ções Uni­das e da União Europeia.
Interessa pois começar o presente texto pela descrição breve da situação real deste conflito, para a seguir procurar o seu enquadramento num con­tex­to mais vasto, no próprio Sudão e na região onde está inserido.

A questão do Darfur
Darfur é uma região do Sudão com cerca de quinhentos mil quilômetros qua­dra­­dos, com um comprimento máximo da ordem dos mil e duzentos quilómetros e uma largura máxima de cerca de quinhentos quilômetros, com uma população da ordem dos seis milhões de pessoas.
Darfur, que é um pouco mais pequena que a França, faz fronteira com a Lí­bia, com o Chade e com a Repúbli­ca Centro‑Africana.
A região que constitui um planalto árido, deserto arenoso a norte e floresta de arbusto a sul, é pobre, com agricultura de subsistência, produzindo cere­ais, fruta, tabaco e gado, essencialmente.
Alguns analistas consideram no entanto que, com exceção da zona desérti­ca, existem muitas potencialida­des na agricultura, dado que existe água sufi­ci­ente e os terrenos são de quali­da­de razoável; existem muitas bar­ra­gens de ir­ri­ga­ção que estão parcialmente destruidas e não existem apoios para a capta­­­­ção de água do subsolo, que existe em suficiência. Na década de no­ven­ta, por exemplo, a produção de gado no Darfur rendeu cerca de 500 mil­hões de dólares por ano.
A partir de 1999 começaram os trabalhos que permitiriam a exploração de pe­tró­leo no sul do Sudão, de acordo com as prospecções iniciadas cerca de trinta anos antes. A conclusão do pipeline que liga os principais poços do sul ao Mar Vermelho, junto a Porto Sudão veio possibilitar a exploração e a expor­ta­ção.
a região do Darfur, numa pequena parte do território no sul foram atribui­das uma ou duas zonas de concessão do bloco seis, que se alastra para outra região do Sudão, e que está a ser explorado por uma companhia chi­nesa.

Darfur é a terra dos Fur, ou fourrás, tribos africanas sedentárias, vivendo da agri­cul­tura de subsistência, que lhe terão dado o nome. Mas existem ainda ou­tras tribos africanas igualmente sedentárias como por exemplo os Masali­tes e os Zaghawa.
ara além destes povos, existem aqui igualmente os “ba­gga­ra”, be­­dui­nos, nó­ma­das, vivendo fundamentalmente da pastorícia. Algumas destas etnias pro­longam‑se no vizinho Chade.
Os povos assumem algumas diferenças, embora possa ser difícil a um es­tran­geiro, apenas pela aparência, notar essas diferenças, pelo menos nalgu­mas áreas.
O conflito é muito mais de natureza tribal e política, de reivindicação da terra, e da percepção que uns são autóctones e outros serão estranhos, embora outras diferenças possam vir a reforçar es­tas na busca de legitimidade para a ação violenta.
A história desta região tem sido uma história de conflito quase permanente

entre as várias tribos, e entre estas e os reinos vizinhos, designadamente o Su­dão e o Egito.
Darfur esteve constituido em Reino, durante muitos sé­cu­los, embora com a fra­gmentação de poder característica da forma de vida das populações que o habitavam, e também imposta pelas condições naturais relativamente agres­tes.

Desde o século XIII foram três as dinastias que dominaram: a Dajo, até ao século XVI, a Tunjur até ao século XVIII e a Keira, que foi derrotada pelos turcos em 1874.

O Islã entrou nesta região no século XIV, constituindo um factor de agre­gação política; contudo, a organização política trazida pela influência da tri­bo que o propagou baseou‑se numa lei que não era exactamente a lei corâ­ni­ca. Só por volta de 1700 é que o Islão foi considerado como a religião do Estado.
Foram essencialmente razões de partilha do Reino que levaram às grandes di­vi­sões internas, o que deu origem a uma guerra interna generalizada duran­te os anos de 1785 e 1786, e que conduziu a uma perda de importância e de estatuto e portanto a uma apetência à ocupação e influência por parte dos vizinhos.
O reino do Darfur ajudou Napoleão nas suas campanhas no Egito, especial­mente com o forne­ci­mento de escravos – Darfur era de longa data um centro de comércio de es­cra­vos, e as tribos africanas competiam com as tribos árabes neste negó­cio, sendo o escravo o elemento de raça negra.
Mas para além da exportação de escravos, Darfur era também um entreposto comercial com alguma importância na região, por essa época.
Apesar da ocupação otomana, que foi tardia em relação aos reinos de leste do Sudão (no leste teve lugar a partir de 1820), nunca deixou de existir re­sis­tên­cia por parte das populações de Darfur a essa ocupação, desenvolven­do‑se uma guerra permanente de guerrilha.
Em 1875 sofreu a ocupação egípcia e depois britânica, mas em 1899 re­cu­pe­rou a sua autonomia.
Em 1916 aliou‑se ao Império Otomano, declarou guerra à Grã‑Bretanha, em decorrência dessa aliança, e por isso sofreu as consequências da sua atitude no final da Guerra com a perda do seu estatuto político, e com a ocupação egipcio‑britânica. No entanto, o ocupante político assumiu sempre uma certa autonomia, relativamente ao vizinho Sudão.
Com a independência do Sudão em 1956, integrou o território deste Estado, embora tenha continuado a resistir a essa situação de facto. Nos princípios da década de oitenta verificou‑se uma revolta contra Cartum que foi anulada, e em 1994 o Gover­no Central decidiu constituir três estados federais em Dar­­fur, integrados no Estado do Sudão.

Naturalmente que o conflito atual no Darfur tem alguma influência das guerras civis sudanesas, designadas como guerras entre o Norte e o Sul (Dar­fur está a Oeste mas está inserido no mesmo tipo de clivagem, isto é, reage igualmente contra o centro), que fo­ram objeto de um início de resolução a partir de princípios em 2002, processo que culminou no cessar fo­go de Janeiro de 2005. Os dissidentes de Darfur sentiram‑se então motiva­dos a seguir um processo idêntico aos seus irmãos do Sul.

A guerra começou em Fevereiro de 2003; a informação sobre os números de mor­tos provocados diretamente por acções de guerra e pela fome é diferen­te, consoante as fontes, variando entre cerca de quinhentos mil e cento e oitenta mil, em dezoito meses. O número de deslocados será da ordem dos dois milhões de pessoas (cerca de um terço da população), dos quais cerca de duzentos mil se encontram em campos de refugiados no Chade.
As razões invocadas pela rebelião centram‑se na discriminação do Go­verno Central relativamente às populações não árabes, e na convicçaõ de que só a recuperação da independência poderá trazer tranquilidade e desen­volvimento à população.
s primeiros ataques dos grupos rebeldes acima mencionados incidiram so­bre instalações e forças go­ver­na­men­tais. Estes ataques apanharam o Gover­no de surpresa, que retaliou com bombardeamentos aéreos em apoio de mi­lí­cias árabes, as “Janjaweed”, de re­cru­ta­mento regional.


NOTÍCIAS RECENTES SOBRE O TEMA

JUBA, 26 Setembro 2008 (PlusNews) - Em Lokony, um bairro de Juba, capital do Sudão do Sul, mensagens educativas sobre HIV são coladas nas paredes externas de uma escola local, mas os transeuntes mal olham para os pôsteres. Isso não surpreende, considerando que a maioria das pessoas não sabe ler.

Apenas 24 por cento dos sudaneses do sul sabem ler e escrever, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a População. Isso significa que métodos tradicionais de divulgação de informações sobre o HIV – tais como pôsteres, outdoors e panfletos em centros de saúde – não alcançam a maior parte da população. A região recebeu US$ 28,5 milhões do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Malária e Tuberculose em 2007, quando um mapa para contenção da epidemia foi elaborado, mas pouco progresso foi feito. “Toda vez que nos reunimos com nossos parceiros, toda vez que nos reunimos com líderes governamentais, somos abordados da seguinte maneira: 'Vocês dizem que estão a combater a SIDA, mas quando viajamos pelo sul do Sudão, na realidade não se vêem quaisquer mensagens'”, disse Angok Kuol, director executivo da Comissão contra a SIDA do Sudão do Sul (SSAC, em inglês). “Devemos criar mensagens padronizadas”, disse ele numa reunião de partes interessadas no HIV em Juba. “Temos que parar de utilizar mensagens que não são claras o bastante, que não estão em conformidade com nossas culturas.”
Seja fiel ao seu parceiro - num cenário poligâmico, você vai dizer às pessoas para mandar embora a outra esposa? Durante a maior parte dos últimos cinquenta anos, o Sudão do Sul esteve envolvido em vários conflitos, dos quais o mais recente terminou com a assinatura de um abrangente acordo de paz entre o norte e o sul em 2005.

Desde então, funcionários de saúde pública descobriram que é improvável que as mensagens de prevenção ao HIV que parecem ter funcionado tão bem em países vizinhos tais como Quénia e Uganda tenham o mesmo sucesso na região. Muitos profissionais de saúde questionam se a estratégia ABC – Abstinência, Fidelidade e Preservativos (da sigla em inglês) – pode funcionar no sul do Sudão. Comunicadores de saúde pública passaram parte do encontro a elaborar soluções sobre como modificar a abordagem. “Seja fiel ao seu parceiro – num cenário poligâmico, você vai dizer às pessoas para mandar embora a outra esposa?” indagou Fredrick Musoke, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e SSAC, contratado para desenvolver uma política de comunicação de mudança de comportamento para a região. Poligamia é apenas uma das diversas práticas a dificultar os esforços dos profissionais de saúde pública para combater a SIDA. A herança de esposas também é difundida. O dote da mulher é às vezes equivalente a um rebanho de gado, portanto, mesmo quando o marido morre, é do interesse da família dele manter a esposa e seus bens na família. “Use preservativo para proteger a quem se ama”, sugeriu um grupo, mas o slogan foi logo derrubado por Deng Mathiang, da SSAC. “Significa portanto que se você tiver relações sexuais com alguém a quem não ama, não deve usar o preservativo?” questionou. “Algumas pessoas fazem sexo apenas porque têm vontade.” “Sem preservativo não há sexo”, recomendou outro grupo, enquanto Kuol, da SSAC, pensava se o uso de desenhos educativos detalhados seria a melhor maneira de alcançar uma população em grande parte analfabeta. O encontro em Juba não teve respostas fáceis, mas para os profissionais de saúde da região é um alívio que um esforço significativo relativo à prevenção do HIV esteja finalmente sendo posto em prática.

FOCO 46: OS CONFLITOS NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO !

A República Democrática do Congo, localizado na região central da África, tornou-se, nos últimos anos, foco de conflitos na região dos Grandes Lagos africanos. Após derrubar o ditador Mobutu Sese Seko, em 1997, Laurent Kabila enfrenta uma rebelião de antigos aliados. O envolvimento militar de nações vizinhas amplia a guerra civil, responsável por quase 5 milhões de mortes.
Em 2001, o presidente é assassinado e sucedido por seu filho, Joseph Kabila, que começa a negociar a paz. Florestas tropicais cobrem metade do território, irrigado por muitos rios, com destaque para o Congo, o segundo mais extenso da África. Lagos pontilham a fronteira leste - o maior é o Tanganica. Cerca de 60% da população, com mais de 200 etnias, vive em áreas rurais. Um dos líderes na produção mundial de diamantes, a RDC possui vastas reservas minerais.

História

A região é ocupada na Antiguidade por bantos da África Oriental e povos do rio Nilo, que ali fundam os reinos de Baluba e do Congo. Em 1878, o explorador Henry Stanley estabelece entrepostos comerciais no rio Congo, sob ordens do rei belga Leopoldo II. Na conferência de Berlim, em 1885, que divide a África entre as potências européias, Leopoldo II recebe o território como possessão pessoal. Em 1908, o Estado Livre do Congo deixa de ser propriedade da Coroa e torna-se colônia da Bélgica, chamada Congo Belga.

Independência - O movimento nacionalista se inicia em 1957, com os primeiros partidos políticos no país. O Movimento Nacional Congolês, sob a liderança de Patrice Lumumba, prega a independência em âmbito nacional, opondo-se às tendências separatistas em Katanga, região no extremo sul do país rica em minérios. Em junho de 1960, o Congo conquista a independência com o nome de República do Congo. Lumumba, pró-União Soviética (URSS), assume o cargo de primeiro-ministro, e Joseph Kasavubu, a Presidência. A maioria dos colonos europeus deixa o país. Poucos dias depois, eclode uma rebelião separatista comandada por Moise Tshombé, que reivindica a região de Katanga. Antes do fim do ano, Kasavubu afasta do governo Lumumba, assassinado em janeiro de 1961, em trama com a participação do governo belga.

A Organização das Nações Unidas (ONU) envia tropas para conter os levantes revolucionários e as lutas separatistas que eclodem no país, o que consegue em 1963, com a fuga de Tshombé. Dias depois da retirada da ONU, em 1964, Tshombé regressa e torna-se primeiro-ministro, mas, em outubro de 1965, é obrigado a renunciar. Em novembro, Kasavubu é derrubado em um golpe liderado por Mobutu Joseph Désiré.

Ditadura de Mobutu - Mobutu estabelece uma ditadura apoiada pelas multinacionais que operam no território. Na década de 1970 impõe a "africanização" do país, mudando seu nome para Zaire, e o da capital, para Kinshasa (ex-Leopoldville). O próprio Mobutu passa a se chamar Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa "o todo-poderoso guerreiro que, por sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista deixando fogo a sua passagem". Pressões externas levam-no a adotar o pluripartidarismo, em 1990. Em 1992 é instituída uma Conferência Nacional para realizar reformas constitucionais. A constante ação de Mobutu, porém, impede que a Conferência realize a transição para a democracia.

Kabila no poder - Em 1994, mais de 1 milhão de ruandeses (na maioria da etnia hutu), foragidos do genocídio em seu país, ingressam no leste do Zaire. A chegada dos refugiados desestabiliza a região, habitada há mais de 200 anos pelos tutsis baniamulenges, etnia rival dos hutus. Sentindo-se negligenciados por Mobutu - que tolera a presença dos hutus -, os baniamulenges iniciam uma rebelião em 1996, liderados por Laurent-Désiré Kabila. Ele não é tutsi, mas chefia um movimento guerrilheiro desde os anos 1960.

A revolta conta com o auxílio da vizinha Uganda e do recém-instaurado regime tutsi de Ruanda e ganha adesão popular. Os rebeldes entram em Kinshasa em maio de 1997, sob os aplausos da população. Kabila assume o poder e retoma a designação de República Democrática do Congo (RDC) - nome vigente de 1964 a 1971. Mobutu foge e morre de câncer, em setembro, no Marrocos.

Guerra civil - Kabila suspende os partidos e proíbe manifestações. Tensões com antigos aliados, os tutsis baniamulenges, levam à ruptura com os governos de Uganda e Ruanda. Em 1998, militares baniamulenges se amotinam, e a revolta transforma-se em guerra civil. Enfraquecido, Kabila pede socorro militar a Angola, Zimbábue e Namíbia, que enviam tropas. Uganda e Ruanda ajudam os guerrilheiros da Reunião Democrática Congolesa (RCD).

Acordo de Lusaka - Em agosto de 1999, os governos envolvidos no conflito e as facções guerrilheiras firmam cessar-fogo em Lusaka, na Zâmbia. O acordo, porém, não é cumprido. Em novembro, o Conselho de Segurança da ONU aprova a formação da missão de paz no país, chamada Monuc. No início de 2000, Ruanda e Uganda, até então aliados, passam a apoiar facções distintas - RCD e Movimento de Libertação do Congo (MLC), respectivamente - na luta pelo controle das regiões produtoras de diamante perto de Kisangani.

Fatos recentes

Em 2001, Kabila é assassinado. Seu filho, o major-general Joseph Kabila, assume a Presidência aos 29 anos e defende um processo de paz. O governo e as facções rebeldes iniciam as negociações, cujo princípio é a integridade territorial da RDC. Em 2002 saem do país as tropas de Ruanda, Angola, Namíbia e Zimbábue. E chega-se a um acordo para que os rebeldes integrem o governo.

Em abril de 2003, o presidente Kabila assina a nova Constituição, instituindo o governo provisório, encabeçado por ele, com mandato por mais dois anos e eleições ao final. O acordo institui quatro vice-presidentes (dois indicados pelos rebeldes, um por Kabila e um pela oposição legal), a formação de um Parlamento provisório e a integração dos grupos armados no Exército. Prevê-se também a vinda de forças de paz da ONU. Em maio, as tropas de Uganda saem da RDC.

Governo transitório - Kabila nomeia o novo governo em julho, e o Parlamento é instalado em seguida, com representantes dos rebeldes, da oposição e de partidários de Kabila. Mas os combates não cessam completamente, sobretudo no leste da RDC. Em março de 2004, o governo anuncia que derrotou uma tentativa de golpe, feita por homens ligados ao ex-presidente Mobutu. Em junho, há nova tentativa de golpe encabeçada por oficiais ligados à chamada linha dura, que se opõe ao entendimento do governo com os rebeldes. Doze envolvidos são presos.Tensão étnica - No mesmo mês, 2 mil homens ligados à RCD - grupo que integra o governo provisório - ocupam Bukavu, no leste do país. O pretexto é proteger os tutsis baniamulenges de violências étnicas. Kabila acusa o governo tutsi de Ruanda de apoiar o grupo e cresce o risco de guerra. Em várias cidades, incluindo Kinshasa, as forças da ONU são atacadas por manifestantes sob a acusação de omissão em Bukavu, e há 12 mortes, incluindo dois soldados da ONU. Dias depois, porém, as tropas rebeldes se retiram da cidade. Em outubro, a ONU decide ampliar a força de paz na RDC de 10,8 mil para 16,7 mil homens. Apesar da persistência dos conflitos, o presidente Kabila reafirma, em outubro, o objetivo de realizar eleições gerais em 2005.

Riquezas minerais são alvo de cobiça

O envolvimento de cinco países e vários grupos guerrilheiros na guerra civil na República Democrática do Congo tem como pano de fundo a disputa por um território com riquezas minerais como diamante, ouro, estanho e nióbio. A Organização das Nações Unidas (ONU) combina a pressão pela retirada das tropas estrangeiras, com a presença da força de paz e a divulgação de relatórios acusando Uganda e Ruanda de saquearem o país vizinho. O Conselho de Segurança da ONU condena, em 2001, a exploração ilegal de recursos naturais na RDC. O documento traça uma relação direta entre o conflito e o saque das riquezas, aponta líderes de grupos armados e dos países vizinhos como beneficiários diretos da pilhagem (incluindo a família do presidente de Uganda, Yoweri Museveni) e ameaça os envolvidos com sanções.O relatório cita também como beneficiários o Burundi, que apóia rebeldes, e o Zimbábue, aliado do presidente Kabila, que teria explorado a maior mina de diamantes do país em troca do fornecimento de armas. A ameaça de sanções exerce forte pressão para acelerar a retirada das tropas estrangeiras da RDC, encerrada em maio de 2003. Em novembro, a ONU adota nova resolução condenando a exploração ilegal dos recursos da RDC e ligando-os ao tráfico de armas na região e aos conflitos, que prosseguem em 2004.


NOTÍCIAS RECENTES SOBRE O TEMA

Idade avançada faz premiê da República Democrática do Congo renunciar
Antoine Gizenga, que tem mais de 80 anos, anunciou renúncia.Ele disse que seu espírito está forte, mas o corpo não está à altura.
Do G1, com agências internacionais
O primeiro-ministro da República Democrática do Congo, Antoine Gizenga, anunciou nesta quinta-feira (25) que ia renunciar por conta de sua "idade avançada". "Decidi apresentar minha renúncia ao presidente", disse Gizenga em discurso na televisão. Ele tem mais de 80 anos. Ele disse que, apesar de que seu espírito "ainda está forte", ele concluiu que seu corpo envelhecido não estava mais à altura da tarefa de governar. Depois de ter vencido as eleições de 2006, o presidente Joseph Kabila indicou o oposicionista Gizenga para chefe de governo, como recompensa pelo apoio do socialista Palu, partido de Gizenga, durante a campanha. Gizenga havia sido vice do primeiro premiê do Congo, que foi assassinado em 1961 meses depois que o país conseguiu sua independência da Bélgica.

FOCO 45: OS CONFLITOS EM BURUNDÍ !

Sem saída para o mar, o Burundi está situado no centro-leste da África, na região dos Grandes Lagos. Desde a independência, na década de 1960, é palco de violentos combates que envolvem tutsis e hutus - etnias também em conflito na vizinha Ruanda -, com centenas de milhares de mortos e refugiados. Com altas taxas de e densidade demográfica, o país detém o quinto menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Mais da metade da população, predominantemente rural, é analfabeta.
Baseada no cultivo de café e chá, a agricultura emprega a maioria da força de trabalho e responde por cerca de 50% do Produto Interno Bruto (PIB). A indústria se restringe à capital, Bujumbura, onde existe um pequeno setor de manufaturas. A guerra civil afeta seriamente a economia, fazendo com que o país dependa da ajuda externa, em especial de Bélgica, França e Alemanha.

História
O Reino do Burundi existe desde o século XVII e antecede a colonização européia. A região dos atuais Burundi e Ruanda é marcada pela presença das etnias hutu (maioria) e tutsi (minoria dominante). Na década de 1890, o atual Burundi é incorporado às terras coloniais alemãs. Após a derrota da Alemanha na I Guerra Mundial, a região fica sob tutela da Bélgica, que explora as tensões tribais para assentar sua dominação. Em 1946, a tutela passa para a ONU.

Independência
Em 1962, o país torna-se independente, sob uma monarquia tutsi. Com a retirada da força militar belga, a luta pelo poder transforma-se em conflito étnico. Os ressentimentos acumulados desde o período colonial explodem em 1965, quando uma rebelião hutu é esmagada pelo governo. No ano seguinte, a monarquia é derrubada por um golpe de Estado liderado pelo primeiro-ministro, o tutsi Michel Micombero, que proclama a república e assume a Presidência. As décadas seguintes são marcadas por diversos golpes de Estado. Os conflitos matam dezenas de milhares de pessoas.

Massacres
Uma das piores matanças da história do Burundi tem início em outubro de 1993, quando oficiais tutsis matam o primeiro presidente eleito, o oposicionista hutu Melchior Ndadaye, no cargo havia quatro meses. Os hutus reagem e sua ação desencadeia a guerra civil, que dura até hoje, com mais de 200 mil mortos e1 milhão de refugiados, que se deslocam para Ruanda, Tanzânia e República Democrática do Congo (RDC).Em fevereiro de 1994, o hutu Cyprien Ntaryamira é escolhido para a Presidência. Dois meses depois, Ntaryamira e o presidente de Ruanda, o também hutu Juvénal Habyarimana, são mortos num atentado que derruba o avião no qual viajavam. É o estopim para uma nova fase de violência no Burundi e sobretudo em Ruanda, onde há um genocídio contra os tutsis.

Golpe militar
Em 1996, o Exército, dominado por tutsis, dá outro golpe de Estado e coloca na Presidência o major Pierre Buyoya. As nações vizinhas impõem sanções econômicas e isolam o Burundi. Piora a situação do país, cuja base econômica, a agricultura, encontra-se arrasada pela guerra. Em 1998 começam conversações com a oposição para pacificar o país. O ex-presidente sul-africano Nelson Mandela assume a coordenação das negociações de paz no Burundi e reúne, em 2000, representantes do governo, da Assembléia Nacional e dos principais partidos. Sob intensa pressão de Mandela e dos Estados Unidos, é feita a tentativa de um acordo de paz. O impasse é a resistência dos hutus à continuidade de Buyoya na Presidência.

Fatos recentes
A guerra civil prossegue em 2001, com ataques dos dois principais grupos rebeldes hutus: Frente de Libertação Nacional (FNL) e Forças em Defesa da Democracia (FDD). Uma nova rodada de negociações sem os dois grupos forma um governo provisório de três anos, encabeçado inicialmente por Buyoya e, no período final, pelo hutu Domitien Ndayizeye, líder da Frente para a Democracia de Burundi (Frodebu).Tropas da ONU - Em abril de 2003, Ndayizeye assume a Presidência. Em novembro, o governo e a FDD fecham um acordo: o grupo obtém quatro ministérios e 40% dos oficiais do Exército. Em maio de 2004, o Conselho de Segurança da ONU decide enviar uma força internacional para o Burundi.No começo de agosto, um novo acordo é assinado pelo governo, pelo Exército e por 20 partidos e grupos, para balancear a presença de hutus e tutsis nas instituições de Estado. Mas a tensão interna volta a se agravar, dias depois, quando os hutus da FNL chacinam 160 tutsis congoleses (chamados de banyamulenges) em um campo de refugiados. Nas semanas seguintes, o Exército ataca posições da FNL.Nova Constituição - Em outubro, o presidente Ndayizeye apresenta e o Parlamento aprova uma nova Constituição provisória. Ela estende o mandato do governo e marca as eleições presidenciais para abril de 2005, quando haverá um plebiscito sobre a nova Constituição. Em janeiro de 2005, o presidente forma o novo Exército nacional, incorporando às Forças Armadas todos os grupos hutus, salvo a FNL. O processo de integração é gradativo e pode durar até quatro anos.


NOTÍCIAS RECENTES SOBRE O TEMA
Bujumbura, Burundi (PANA) - O último relatório do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, sobre a Representação Integrada da ONU no Burundi (BINUB), anuncia uma situação sociopolítica "extremamente precária" no país que exige uma resposta urgente."Pretendo apresentar ao Conselho de Segurança recomendações específicas sobre esta questão se a situação no terreno continuar a deteriorar-se", revela Ban Ki Moon no seu terceiro relatório sobre a BINUB, criada desde Janeiro de 2007.
No documento, Ban Ki Moon diz ter instado, por precaução, a BINUB e a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUC) a elaborar um plano de acção se a situação no Burundi se deteriorar.Segundo ele, as eleições que decorreram com êxito em 2005, bem como a assinatura dum acordo geral de cessar-fogo e a retirada da Operação das Nações Unidas no Burundi (ONUB) a pedido do Governo "deram a impressão de que a situação está a normalizar-se".A ONUB é uma operação militar de manutenção da paz que mobilizou mais de seis mil 650 "capacetes azuis" entre 2004 e 2007, antes de ser substituída pela BINUB como missão civil de consolidação da paz no país.A situação "deteriorou-se gravemente" nos planos político, humanitário e de segurança no Burundi", sublinha o relatório.As hostilidades retomaram à grande escala entre as forças de segurança nacionais e o Partido para a Libertação do Povo Hutu/Frente Nacional de Libertação (PALIPEHUTU-FNL), último movimento rebelde ainda activo no país, ao passo que um ressurgimento da tensão entre a maioria presidencial e a oposição desencadeou uma nova crise política que continua hoje a paralisar as actividades do Parlamento e outras instituições fundamentais.
O Governo de unidade nacional, formado em Novembro de 2007, "não suscitou, contrariamente às expectativas, o impulso político necessário para lançar a reforma da governação e restabelecer o Burundi na via do desenvolvimento", denuncia, por outro lado, o Secretário-Geral da ONU.
O relatório assinala igualmente deslocações maciças de populações provocadas pelas hostilidades, pelo prosseguimento das violações generalizadas dos direitos humanos perpetrados pelas forças de segurança nacionais, pela ausência duma Justiça de transição ou ainda pela ameaça de insegurança alimentar."Importa que os líderes políticos lancem com urgência um verdadeiro diálogo a fim de ultrapassar as suas diferenças e consagrar-se à adopção de medidas legislativas há muito adiadas", recomenda o Secretário-Geral da ONU.

sábado, 27 de setembro de 2008

FOCO 44: OS CONFLITOS EM RUANDA !

O mapa acima se refere a Ruanda, país do Centro-Leste da África, que ao contrário dos seus vizinhos, era um reino centralizado, não teve a sua “sorte” decidida na Conferência de Berlim (de 1885) e só foi entregue à Alemanha (juntamente com o vizinho Burundi) em 1890, numa conferência em Bruxelas, em troca de Uganda e da ilha de Heligoland. No entanto, as fronteiras desta colônia – que, na altura incluíam também alguns pequenos reinos das margens do Lago Vitória – só foram definidas em 1900.
Depois da derrota da Alemanha na
Primeira Guerra Mundial, o protetorado foi entregue à Bélgica, por mandato da Liga das Nações. O domínio belga foi muito mais direto e duro que o dos alemães e, utilizando a Igreja Católica, manipulou a classe alta dos tutsi para reprimir o resto da população - majoritariamente hutus e demais tutsis - incluindo a cobrança de impostos e o trabalho forçado, criando um fosso social maior do que o que já existia.
Depois da
Segunda Guerra Mundial, Ruanda tornou-se novamente um protetorado, pelas Nações Unidas, tendo a Bélgica como autoridade administrativa. Através de uma série de processos, incluindo várias reformas, o assassinato do rei Mutara III Charles, em 1959 e a fuga do último monarca do clã Nyiginya, o rei Kigeri V, para Uganda, os hutus ganharam mais poder e, na altura da independência, em 1962, os hutus eram os políticos dominantes. Em 25 de Setembro de 1960, a ONU organizou um referendo no qual os ruandeses decidiram tornar-se uma república. Depois das primeiras eleições, foi declarada a República de Ruanda, com Grégoire Kayibanda como primeiro ministro.
Após vários anos de instabilidade, em que o governo tomou várias medidas de repressão contra os tutsis, em
5 de Julho de 1973, o major general Juvénal Habyarimana, que era ministro da defesa, destituiu o seu primo Grégoire Kayibanda, dissolveu a Assembleia Nacional e aboliu todas as atividades políticas. Em Dezembro de 1978 foram organizadas eleições, nas quais foi aprovada uma nova constituição e confirmado Habyarimana como presidente, que foi reeleito em 1983 e em 1988, como candidato único mas, em resposta a pressões públicas por reformas políticas, Habyarimana anunciou em Julho de 1990 a intenção de transformar o Ruanda numa democracia multipartidária.
No entanto, nesse mesmo ano, uma série de problemas climáticos e econômicos geraram conflitos internos e a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), dominada por tutsis refugiados nos países vizinhos lançou ataques militares contra o governo hutu, a partir de Uganda. O governo militar de Juvénal Habyarimana respondeu com programas genocidas contra os tutsis. Em
1992 foi assinado um cessar-fogo entre o governo e a RPF em Arusha, Tanzania.
O conflito em Ruanda teve como estopim um atentado que matou o presidente do país, Juvenal Habyarimana, da etnia hutu, em 6 de abril de 1994. Em represália, as milícias interahamwe, fiéis ao dirigente ruandês, começaram os massacres. Analistas políticos disseram, à época, que essa era apenas uma desculpa para desencadear a matança.
Os primeiros confrontos entre hutus e tutsis aconteceram na década de 60. Mas foi em 1990 que a tensão atingiu seu ápice, com o início de uma guerra civil que culminou em genocídio de um milhão de pessoas quatro anos mais tarde.
Até então, o país era governado pela maioria hutu — 90% da população —, e toda a violência foi direcionada à minoria tutsi — 9% dos habitantes —, que, contra todos os prognósticos, conquistou o poder. Mas os hutus moderados também foram cruelmente perseguidos porque não concordavam com seus líderes.
Homens, mulheres e crianças foram exterminados a machadadas e esquartejados com granadas. Uma das cenas que mais horrorizaram o mundo foi a de centenas de corpos boiando pelo rio Kagera, localizado na fronteira entre Ruanda e Tanzânia. Os três meses de massacre provocaram o êxodo de 2,3 milhões de pessoas aos países vizinhos.
Em
6 de Abril de 1994, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi, foram assassinados quando o seu avião foi atingido por fogo quando aterrisava em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e milícianos ligados ao antigo regime mataram cerca de 800.000 tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda. Entretanto, a RPF, sob a direção de Paul Kagame ocupou várias partes do país e, em 4 de Julho entrou na capital Kigali, enquanto tropas francesas de manutenção da paz ocupavam o sudoeste, durante a “Opération Turquoise”.
Ainda trabalha-se para julgar os culpados pelo massacre de Ruanda. Até
2001, 3 mil foram julgados, com 500 penas máximas.
Paul Kagame ficou como vice-presidente e Pasteur Bizimungu como presidente mas, em
2000, os dois homens fortes entraram em conflito, Bizimungu renunciou à presidência e Kagame ficou como presidente. Em 2003, Kagame foi finalmente eleito para o cargo, no que foram consideradas as primeiras eleições democráticas depois do Genocídio. Entretanto, cerca de 2 milhões de hutus refugiaram-se na República Democrática do Congo, com medo de retaliação pelos tutsis. Muitos regressaram, mas conservam-se ali milícias que têm estado envolvidas na guerra civil daquele país.
Um filme que ajuda entender a amplitude do conflito e a interferência internacional durante a formação, o decorrer e o fim do Genocídio é "
Hotel Ruanda", que conta a história de um hoteleiro chamado Paul Rusesabagina, que enfrenta a difícil tarefa de defender sua família e amigos tutsis, da repressão hutu, e acaba por abrigar diversos refugiados, em miséria e pavor, em seu hotel antes destinado aos turistas e missionários na região. A história é baseada em fatos reais.
FATOS ATUAIS SOBRE O TEMA

Conforme previsto, o atual presidente da Ruanda, Paul Kagame, foi o vitorioso nas eleições obtendo 78% dos votos. Quatorze anos após o genocídio que espantou o mundo, a vida nesse país africano parece estar retornando à normalidade. No entanto, há ruandenses que avaliam como "uma farsa" as eleições iniciadas na segunda-feira. O processo eleitoral se conclui hoje, com a eleição indireta de 27 dos 80 parlamentares que compõem o Congresso. Especialistas sobre Ruanda tendem a enfatizar positivamente os avanços obtidos no país em direção à normalidade, ao lembrar a esquizofrenia vivida no passado, quando em 1994, membros da minoria tutsi foram vítimas de um avassalador genocídio pelos hutus. O massacre de 800 mil pessoas ocorreu diante da indiferença mundial.
Banco Mundial apresentou, recentemente, com orgulho alguns avanços dizendo que a Ruanda implementou notáveis reformas em diversos setores. O país está à frente de muitas nações africanas, em termos de negócios, segundo o relatório anual dessa instituição internacional. A Ruanda saltou nove lugares na escala mundial e está entre os vinte primeiros líderes no ranking de reformas apregoadas pelo BM. Atualmente, menos políticos, assistentes sociais e jornalistas estão produzindo relatórios sobre abusos aos direitos humanos, eleições manipuladas e abuso de poder no país. Eles estão mais interessados em como o país superou seu passado violento e traumático. A situação na Ruanda melhorou muito, em relação há dez anos. A economia cresceu, a corrupção caiu e edifícios modernos ganharam os céus da capital, Kigali. O governo tenta melhorar o setor de tecnologia e espera transformar o país na Hong Kong ou Cingapura da região. A imagem da Ruanda é de segurança e estabilidade e o turismo aumenta a cada dia. O presidente ruandês Paul Kagame, bem-relacionado no ocidente, gosta de se apresentar como um democrata modelo. Freqüentemente critica seus colegas africanos que tentam manter-se no poder mudando a Constituição em benefício próprio, como o presidente ugandense Yoweri Museveni. As Forças Armadas da Ruanda também pararam de pilhar a vizinha República Democrática do Congo. Mulheres e poderA situação da mulher na política na Ruanda é outro aspecto positivo. Uma lei estipula que 30% dos membros do parlamento devem ser do sexo feminino. O partido governista vitorioso nas urnas, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), contava com 35% de mulheres candidatas. Graças à lei, as mulheres podem ter a maioria das cadeiras na Câmara dos Deputados. As eleições anteriores colocaram Ruanda na lista de país com mais mulheres no parlamento, à frente da Suécia e de Cuba. Os partidos ruandeses não têm muitas divergências, especialmente depois das crises políticas enfrentadas. A cooperação dos oposicionistas com o partido do governo é grande e pouco usual na competitiva democracia africana. Não há espaço na nova Ruanda para quem quer mexer no passado sangrento ou falar da opressão dos tutsis com os hutus, ou para chamar a Frente Patriótica Ruandesa de um partido ditatorial. Tensão Para os críticos do atual presidente, as eleições ruandesas foram "uma farsa" para demonstrar que a normalidade retornou ao país depois do passado sangrento recente. Apesar de nem tudo que disseram em campanha ser verdade, ainda há enorme tensão entre hutus e tutsis. No entanto, nada foi dito sobre o problema durante o processo eleitoral.
Talvez porque a maioria dos ruandeses considera o avanço econômico mais importante do que o passado. E, se a Frente liderada pelo atual presidente é responsável pelo desenvolvimento, não há razão para fraude. O resultado oficial das eleições será divulgado em 25 de setembro.